sexta-feira, 17 de junho de 2016

SOCIEDADES PROPRIAMENTE DITAS (2/2)

SOCIEDADES PROPRIAMENTE DITAS
Tudo o que dissemos sobre as reuniões em geral aplica-se naturalmente às sociedades regularmente constituídas. Estas, entretanto têm de lutar contra algumas dificuldades especiais decorrentes dos próprios liames entre os seus membros. Dos numerosos pedidos que tenham recebido de informações sobre a sua constituição, resumimos a seguir algumas de nossas explicações.
O Espiritismo, que apenas acaba de nascer, é apreciado de maneiras diversas e muito pouco compreendido na sua essência por grande número de adeptos, para oferecer condições suficientes de união geral entre os seus membros para se formar uma associação.
Não poderão existir estas condições a não ser entre os que compreendam o seu objetivo moral e procuram integrar-se nele.
Entre os que só o veem através dos fatos mais ou menos curiosos nenhum elemento sério de ligação poderia existir. Colocando os fatos acima dos princípios, uma simples divergência na maneira de considerá-los provocaria a divisão. Já não se daria o mesmo no tocante aos primeiros, porque sobre a questão moral não podem existir duas maneiras de ver. Também é fato que, por onde quer que se encontrem uma confiança mútua sempre os liga. A benevolência recíproca, reinando entre eles, afasta todo constrangimento e retraimento originados da suscetibilidade, do orgulho que se irrita com a menor contradição, do egoísmo que só se interessa por si. Uma sociedade em que esses sentimentos dominassem, onde os seus membros se reunissem com o fim de se instruírem e não com a esperança de ver apenas novidades, ou para fazer prevalecer a sua opinião, seria não somente viável, mas também indissolúvel. A dificuldade de reunir ainda numerosos elementos dessa maneira homogêneos leva-nos a dizer que, no interesse dos estudos e para o bem da própria causa, as reuniões espíritas devem multiplicar-se mais pela constituição de pequenos grupos do que de grandes associações. Esses grupos, correspondendo-se entre si, visitando-se, permutando suas observações, podem desde logo formar um núcleo da grande família espírita que um dia reunirá todas as opiniões, unindo os homens no mesmo sentimento de fraternidade caracterizado pela caridade cristã.
Já vimos como é importante a uniformidade de sentimentos para obtenção de bons resultados. Essa uniformidade é naturalmente mais difícil de obter quando o número de pessoas é maior. Nas pequenas reuniões, onde todos se conhecem melhor, tem-se mais segurança na introdução de elementos novos. O silêncio e a concentração tornam-se mais fáceis e tudo se passa como em família. As grandes assembleias não permitem a intimidade pela variedade de elementos de que se compõem. Exigem locais especiais, recursos pecuniários e um aparelhamento administrativo que os pequenos grupos dispensam. A divergência de caracteres, de ideias, de opiniões revela melhor, oferecendo aos Espíritos perturbadores mais facilitados para semear a discórdia. Quanto mais numerosa a reunião, mais difícil de contentar a todos. Cada um quereria que os trabalhos fossem dirigidos a seu gosto, que fossem tratados de preferência os assuntos que mais lhe interessam, e alguns julgariam que o título de sócio lhe daria o direito de impor os seus pontos de vista. Daí surgiria protestos, causas de mal-estar que levam cedo ou tarde à desunião e depois à dissolução, sorte de todas as sociedades de qualquer finalidade. Os pequenos grupos não estão sujeitos a essas dificuldades. A queda de uma grande sociedade pareceria um insucesso para a causa espírita e seus inimigos não deixariam de explorá-la. A dissolução de um pequeno grupo passa despercebido, e se um se dispersa, vinte outros se formam a seguir. Ora, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais para a divulgação do que uma assembleia de trezentas a quatrocentas pessoas.
Dir-se-á por certo que os membros de uma sociedade, agindo como dissemos, não seriam verdadeiros espíritas, desde que o primeiro dever que a doutrina impõe é o da caridade e da benevolência. Isso é perfeitamente justo. E por isso os que assim pensam são espíritas mais de nome que de fato. Não pertencem à terceira categoria (Ver n° 28 - Livro dos Médiuns). Mas quem diria que podem mesmo ser chamados de espíritas? Aqui se apresenta uma consideração de certa gravidade.
Não nos esqueçamos de que o Espiritismo tem inimigos interessados em impedir-lhe o desenvolvimento e que veem com despeito os seus sucessos. Os mais perigosos não são os que o atacam abertamente, mas os que agem na sombra, os que o acariciam com uma das mãos e o apunhalam com a outra. Esses seres malfazejos se infiltram por toda a parte onde possam fazer mal. Sabendo que a união é uma força tratam de destruí-la, semeando a discórdia. Quem poderá então dizer que os que provocam perturbação nas reuniões não sejam agentes provocadores, interessados na desordem? Seguramente não são verdadeiros nem bons espíritas, pois não podem fazer o bem e sim muito mal. Compreende-se que tenham muito mais facilidade de se infiltrar nas reuniões numerosas do que nos pequenos grupos em que todos se conhecem. Graças a manobras escusas, que passam despercebidas, semeiam a dúvida, a desconfiança e a inimizade.
Sob a aparência de interesse pela causa criticam tudo, formam grupinhos que logo rompem a harmonia do conjunto. É o que eles querem. Tratando com essas pessoas é inútil apelar aos sentimentos de caridade e fraternidade, seria como falar a surdos voluntários, porque o seu objetivo é precisamente o de destruir esses sentimentos que são o maior obstáculo às suas manobras. Essa situação, prejudicial a todas as sociedades, o é ainda mais às sociedades espíritas, pois se não levar a uma ruptura provocará preocupações incompatíveis com o recolhimento exigido pelos trabalhos.
Se a reunião encaminhar-se mal — poderão perguntar — os homens sensatos e bem intencionados não terão o direito de crítica e deverão deixar que o mal se efetuasse sem nada dizer, aprovando-o pelo silêncio? Não há dúvida que esse direito lhes assiste, constitui-se mesmo num dever, mas se a intenção for realmente boa eles farão a sua advertência de maneira conveniente e benévola, abertamente e não com subterfúgios. Se não forem ouvidos, se retirarão. Porque não se conceberia que quem não estivesse de segunda intenção se obstinasse a permanecer numa sociedade de cuja orientação discordasse.
Pode-se, pois estabelecer em princípio que todo aquele que numa reunião espírita provoca desordem ou desunião, ostensivamente ou por meios escusos, é um agente provocador ou pelo menos um mal espírita de que se deve desembaraçar o quanto antes. Entretanto os próprios compromissos que ligam os membros de uma sociedade criam obstáculos para isso. Eis porque é conveniente evitar as formas de compromissos indissolúveis: os homens de bem sempre se ligam de maneira conveniente; o mal intencionado sempre o faz de maneira excessiva.
Além das pessoas notoriamente malévolas que se infiltram nas reuniões há as que, por temperamento, levam a perturbação onde comparecem. Dessa maneira nunca será demasiado o cuidado na admissão de novos elementos. Os mais prejudiciais, nesse caso, não são os ignorantes da matéria, nem mesmo os descrentes. A convicção só se adquire através da experiência, e há pessoas de boa fé que querem se esclarecer. Aqueles contra os quais particularmente se devem acautelar são as pessoas dotadas de ideias preconcebidas, os incrédulos sistemáticos que duvidam de tudo, mesmo da evidência, os orgulhosos que pretendem ter o privilégio da verdade e procuram impor sempre a sua opinião olhando com desdém os que não pensam como eles. Não vos enganeis com o seu pretenso desejo de esclarecimento. Encontrareis vários que se sentiriam aborrecidos se fossem obrigados a concordar que estavam errados. Guardai-vos, sobretudo desses oradores insípidos que sempre querem falar por último e dos que só se comprazem na contradição. Uns e outros fazem perder tempo sem proveito, nem mesmo para eles. Os Espíritos não gostam de palavreados inúteis.
Diante da necessidade de evitar toda a causa de perturbação e distração, uma sociedade espírita que se organiza deve pôr toda sua atenção nas medidas destinadas a evitar os fatores de desordem e os motivos de prejuízos, facilitando os meios de afastá-los. As pequenas reuniões necessitam de um regulamento disciplinar bem simples para ordem das sessões. As sociedades regularmente constituídas exigem uma organização mais completa. A melhor será a de sistema menos complicado. Umas e outras poderão tirar o que lhes for aplicado, que creiam lhes ser útil; do regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas que damos logo adiante.
As sociedades, pequenas ou grandes e todas as reuniões, seja qual for a sua importância, têm ainda de lutar contra outra dificuldade. Os fatores de perturbação não se encontram somente entre os seus membros, mas também no mundo invisível. Assim como há Espíritos protetores para as instituições, as cidades e os povos, os Espíritos malfeitores também se ligam aos grupos e aos indivíduos. Ligam-se primeiro aos mais fracos, aos mais acessíveis, procurando transformá-los em seus instrumentos, e pouco a pouco vão envolvendo a todos, porque sua alegria maligna é tanto maior quanto maior o número dos que tenham subjugado.
Todas às vezes, pois, que num grupo uma pessoa tenha caído na armadilha é necessário dizer que se tem um inimigo no campo, um lobo no redil e que se deve ter cautela porque o mais provável é que aumente as suas tentativas. Se não se desencorajar esse elemento por uma resistência enérgica, a obsessão se torna um mal contagioso que se manifestará entre os médiuns pela perturbação da mediunidade e entre os demais pela hostilidade recíproca, a perversão do senso moral e a destruição da harmonia.
Como o mais poderoso antídoto desse veneno é a caridade, é ela que eles procuram abafar. Não se deve, pois esperar que o mal se torne incurável para lhe aplicar o remédio. Nem mesmo se devem esperar os primeiros sintomas, pois é necessário, sobretudo preveni-lo. Para isso há dois meios eficazes, quando bem aplicados: a prece feita de coração e o estudo atento dos menores sintomas que revelem a presença de Espíritos mistificadores. A primeira atrai os Espíritos bons que só assistem zelosamente aos que sabem secundá-los pela confiança em Deus; o outro prova aos maus que se puseram em relação com pessoas esclarecidas e bastante sensatas para não se deixarem enganar. Se um dos membros do grupo cair sob a influência da obsessão, todos os esforços devem tender, desde os primeiros sinais, a lhe abrir os olhos, antes que o mal se agrave, a fim de levá-lo à compreensão de que foi enganado e ao desejo de ajudar os que o procuram livrar.
A influência do meio decorre da natureza dos Espíritos e da maneira por que agem sobre os seres vivos. Dessa influência cada qual pode deduzir por si mesmo as condições mais favoráveis para uma sociedade que aspire a atrair a simpatia dos Espíritos bons, obtendo boas comunicações e afastando as más. Essas condições dependem inteiramente das disposições morais dos assistentes. Podemos resumi-las nos seguintes pontos:
Perfeita comunhão de ideias e sentimentos;
• Benevolência recíproca entre todos os membros;
• Renúncia de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã;
Desejo uníssono de se instruir e de melhorar pelo ensinamento dos Espíritos bons e aproveitamento de seus conselhos. Quem estiver convencido de que os Espíritos superiores se manifestam com o fim de nos fazer progredir e não para nos agradar, compreenderá que eles devem se afastar dos que se limita a admirar o seu estilo sem tirar nenhum fruto das suas palavras só são atraídos às sessões pelo maior ou menor interesse que elas oferecem, de acordo com seus gostos particulares;
• Exclusão de tudo o que nas comunicações solicitadas aos Espíritos só tenha por objetivo a curiosidade;
• Concentração e silêncio respeitoso durante as conversações com os Espíritos;
• Associação de todos os assistentes pelo pensamento no apelo aos Espíritos evocados;
• Concurso de todos os médiuns, com renúncia de qualquer sentimento de orgulho, de amor-próprio e de supremacia, com desejo único de se tornarem úteis.
Essas condições serão tão difíceis de preencher que não se encontrem quem possa satisfazê-las? Não pensamos assim. Esperamos pelo contrário, que as reuniões verdadeiramente sérias, como as existentes em diferentes lugares, se multiplicarão e não hesitamos em dizer que a elas o Espiritismo deverá a sua mais ampla divulgação.
Unindo os homens honestos e conscienciosos elas imporão silêncio à crítica, e quanto mais pura forem as suas intenções mais serão respeitadas, até mesmo pelos seus adversários. Quando a zombaria ataca o bem deixa de provocar o riso e torna-se desprezível. Entre as reuniões dessa espécie é que se estabelecerão laços de real simpatia, uma solidariedade mútua, pela própria força das circunstâncias, contribuindo para o progresso geral.
Seria um erro supor que as reuniões especialmente dedicadas às manifestações físicas estejam excluídas desse concerto fraterno da exigência de qualquer seriedade. Se elas não requerem condições tão rigorosas, nem por isso poderiam ser realizadas e assistidas impunemente com leviandade. Seria engano pensar que o concurso de assistentes seja nulo nessas sessões. A prova do contrário está no fato de que frequentemente as manifestações desse gênero, mesmo quando produzidas por médiuns em dotados, não se realizam em determinados ambientes. As influências contrárias agem também sobre elas é claro que decorrem das divergências ou hostilidade dos sentimentos dos assistentes, que neutralizam os esforços dos Espíritos.
As manifestações físicas têm grande utilidade. Abrem um vasto campo ao observador, pois é uma ordem inteiramente nova de fenômenos estranhos que se desenrola aos seus olhos e cujas consequências são incalculáveis.
Uma reunião pode, portanto ocupar-se dessas manifestações com finalidades bastante sérias, mas não poderia atingir seu objetivo, seja como estudo ou como prova para formar convicção se não se colocasse em condições favoráveis.
A primeira delas é, não na crença dos assistentes, mas o seu desejo de esclarecer-se, sem segundas intenções, sem a ideia preconcebida de rejeitar a própria evidência. A segunda é a redução do número de assistentes para evitar a heterogeneidade.
Se as manifestações físicas são em geral produzidas por Espíritos pouco adiantados, nem por isso a sua finalidade é menos providencial. Os Espíritos bons às favorecem, todas as vezes que elas possam atingir resultados proveitosos.




Livro dos Médiuns, Allan Kardec.  Editora LAKE - Cap. 29 itens 334 até 342

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