terça-feira, 8 de agosto de 2017

Nós e o mundo


NÓS E O MUNDO[1]
“Dai e servos-á dado” - Jesus [Lucas, 6: 38]
“Vós, porém, que vos retirais do mundo, para Me evitar as seduções e viver no insulamento, que utilidade tende na Terra? Onde a vossa coragem nas provações, uma vez que fugis à luta e desertais a combate?”
 E. S. E. Cap.O5, Item 26
Muitos religiosos afirmam que o mundo é poço de tentações e culpas, procurando o deserto para acobertar a pureza, entretanto, mesmo ai, no silencioso retiro em que se entregam a perigoso ócio da alma, por mais humildes se façam, comem, os frutos e vestem a estamenha[2] que o mundo lhes oferece.
Muitos escritores alegam que o mundo é vasto arsenal de incompreensão e discórdia, viciação e delinquência, Como quem se vê diante de um serpentário, contudo, é no mundo que recolhem o precioso material em que gravam as próprias ideias e encontram os leitores que lhes compram os livros.
Muitos pregadores clamam que o mundo é vale de malicia e perversidade, qual se as criaturas humanas vivessem mergulhadas em piscina de lodo, todavia, é no mundo que adquirem os conhecimentos com que ornam o próprio verbo e acham os ouvintes que lhes registram respeitosamente a palavra.
Muitas pessoas dizem que o mundo é antro de perdição em que as trevas do mal senhoreiam a vida, no entanto, é no mundo que receberam o regaço materno para tomarem o arado da e experiência é no mundo que se nutrem confortavelmente a fim de demandarem mais altos planos evolutivos.
O mundo, porém, obra prima da Criação, indiferentes às acusações gratuitas que lhe são desfechadas, prossegue florindo e renovando, guiando o progresso e sustentando as esperanças da Humanidade.
Fugir de trabalhar e sofrer no mundo, a título de resguardar a virtude, é abraçar o egoísmo mascarado de santidade.
O aluno diplomado em curso superior não pode criticar a bisonhice[3] das mentes infantis, reunidas nas linhas primárias da escola.
Os bons são realmente bons se amparam os menos bons.
Os sábios fazem jus à verdadeira sabedoria se buscam dissipar a névoa da ignorância.
O Espírita, na essência, é o cristão chamado a entender e auxiliar.
Doemos, pois, ao mundo ainda que seja o mínimo do máximo que recebemos dele, compreendendo e servindo aos outros, sem atribuir ao mundo os erros e desajustes que estão em nós.



[1] Livro da Esperança, Francisco Cândido Xavier / Espírito Emmanuel, Editora FEB, cap. 12
[2] Tecido grosseiro. Hábito de frade - https://www.dicio.com.br/estamenha/
[3] Qualidade de bisonho; acanhamento, inexperiência. - https://www.dicio.com.br/bisonhice/

sábado, 5 de agosto de 2017

POR QUE A CRIANÇA SOFRE?

POR QUE A CRIANÇA SOFRE?
"Que dizer, enfim, dessas crianças que morrem em tenra idade e da vida só conheceram sofrimentos? Problemas são esses que ainda nenhuma filosofia pode resolver anomalias que nenhuma religião pôde justificar e que seria a negação da bondade, da justiça e da providência de Deus, se verificasse a hipótese de ser criada a alma ao mesmo tempo em que o corpo e de estar a sua sorte irrevogavelmente determinada após a permanência de alguns instantes na Terra,"
Allan Kardec "O Evangelho Segundo o Espiritismo" - Capítulo V, item 6.
Diante dos sofrimentos infantis, é comum que as pessoas comentem "que as crianças não deveriam sofrer," alegam que são inocentes, indefesas, etc. Ao se defrontarem, nos hospitais, com crianças enfermas, portadoras de doenças incuráveis, passando por dores e dificuldades, ou vivendo na própria família a situação de um filho enfermo, não são poucos aqueles que se revolta contra Deus, culpando-O e tentando, de alguma maneira, entender as causas dessas provações.
Realmente, o coração se confrange frente a recém-nascidos enfermos, às vezes portadores de graves deficiências, ou de crianças com mais idade cuja vida é um verdadeiro calvário de dor.
Por outro lado, encontramos crianças que desde o berço sofrem maus-tratos dos pais ou responsáveis.
Crianças torturadas por adultos; crianças vítimas de agressões físicas e psicológicas; crianças relegadas ao abandono, obrigadas a mendigar pelo pão de cada dia; crianças levadas aos vícios por adultos pervertidos; crianças obrigadas a trabalho escravo - enfim, triste é o quadro de tais sofrimentos infantis.
Para arrematar este panorama, crianças que morrem cedo e, conforme a opinião de muitos, prematuramente. Morrem como avezinhas frágeis que as misérias físicas, morais, sociais e espirituais atingem de maneira fatal.
Indagações surgem:
Fatalidade?
Azar?
Castigo de Deus?
Injustiça e crueldade divinas?
A maioria dessas perguntas segue sem resposta pela vida afora, visto que as religiões não têm como explicar, de forma profunda e lógica, o que realmente ocorre e por que ocorre. Como também os psicólogos, psiquiatras, sociólogos, etc. em que pese ao respeito que nos merecem e reconhecendo quanto têm ajudado a minorar os conflitos humanos, esbarram em pontos enigmáticos, difíceis de serem compreendidos e explicados.
Não admitindo a existência de Deus, do espírito, da reencarnação, da Lei de Causa e Efeito, do livre-arbítrio, faltam a todas essas pessoas e credos religiosos os recursos para um entendimento maior acerca do sentido da vida.
Como já foi dito, a criança é um espírito reencarnado; este conhecimento modifica toda a visão da vida terrena, aclarando as causas das lutas, dos sofrimentos, dos relacionamentos, o motivo dos desencontros entre as pessoas, as desigualdades intelectuais, morais, sociais, o porquê dos poucos instantes de felicidade que os seres humanos desfrutam, enfim, uma visão inteiramente nova acerca do mundo e do próprio Universo. Tudo isto remete a criatura a algo verdadeiramente notável e fundamental para seu crescimento, a descoberta de Deus, como Pai misericordioso, onipotente, mas, acima de tudo, a perfeita justiça e bondade.
No livro Entre a Terra e o Céu, ditado pelo Espírito André Luiz apresenta-nos o caso Júlio, que esclarece bastante quanto à questão do sofrimento e à necessidade da reencarnação.
Vejamos, em síntese, alguns pontos desse interessante relato.
Júlio era o filho caçula do ferroviário Amaro e sua esposa, Odila. Esta desencarnou, deixando-o com a filha adolescente, Evelina, e o pequeno Júlio. Ao fim de algum tempo, Amaro casa-se com Zulmira. Esta tem dificuldade de se relacionar com os filhos do primeiro casamento de Amaro, especialmente com o menino, muito ligado ao pai, que lhe dedicava muito carinho e atenção. Vendo-os juntos, a madrasta passa a ter ciúmes do enteado, imaginando que, se ele morresse, teria o marido para si, não tendo que dividi-lo com mais ninguém, já que Evelina era muito retraída e não lhe dava trabalhos.
Num passeio à praia, Zulmira descuida-se, propositadamente, do garoto, então com oito anos, e este acaba morrendo afogado. No último instante, ela se arrepende, mas já era tarde. Presa de remorsos, ela adoece, pois o marido, por sua vez, distancia-se dela, julgando-a relaxada e cruel com os filhos.
Entretanto, Júlio trazia consigo a morte prematura no quadro de provações. Era um suicida reencarnado...
São esclarecimentos de Clarêncio, instrutor espiritual de André Luiz, na obra citada.
Júlio, espírito, é imediatamente amparado e levado; para uma instituição, no plano espiritual, o "Lar da Bênção", importante colônia educativa, misto de escola de mães e domicílio de pequeninos que regressam da esfera carnal.
O menino apresentava um quadro de sofrimento e, por isso, necessitava de atendimento especial, tendo sido entregue aos cuidados de Blandina, espírito detentor de expressivos méritos, que o acolheu em seu próprio lar.
Júlio tinha poucos momentos de tranquilidade: chorava, inquieto, sentia dores na garganta, onde se localizava uma extensa ferida.
Clarêncio, visitando-o para inteirar-se de seu estado, aplica-lhe passes anestesiantes que proporcionam grande alívio ao pequeno enfermo.
Por outro lado, Odila, tomada de ciúmes da nova esposa de Amaro e julgando-a culpada pela morte do filho, passa a obsidiá-la, de forma muito intensa, o que agrava o estado físico e psíquico de Zulmira. No seu desvario, a primeira esposa do ferroviário não se dava conta de que, nesse processo de vingança contra aquela que julgava sua rival e assassina, se distanciava do filho. Após várias providências dos Benfeitores Espirituais, visando à reaproximação e envolvendo o pequeno grupo de encarnados e desencarnados ligados aos acima mencionados, Odila desperta para a realidade e modifica inteiramente o seu modo de pensar e agir, sendo então levada até o lar de Blandina, ocorrendo assim o seu reencontro com o filho querido. Embora a presença da mãe, este não apresentava melhoras significativas, não se livrara de seu sofrimento na região da glote. É esclarecido que Júlio, em anterior existência, vivida em Assunção após uma desilusão amorosa, ingeriu grande dose de corrosivo, tendo sobrevivido por alguns dias; porém, não suportando as dores que o atormentavam, embededou-se e jogou-se no rio Paraguai, terminando assim a vida física.
Renascera, posteriormente, como filho daqueles aos quais estava vinculado espiritualmente, Amaro e Odila, mas, em razão dos seus graves comprometimentos, teria um período curto no plano físico, desencarnando, portanto, por afogamento no mar.
Sabemos que o suicídio acarreta dolorosas consequências. De volta à esfera espiritual, Júlio ressente-se ainda das feridas na garganta e no esôfago, por ter ingerido o corrosivo, lesões estas que sulcaram o seu perispírito, gerando profunda distonia vibratória. Os instrutores espirituais, diante de seu sofrimento, elucidaram que a única maneira de curá-lo seria o retorno ao plano terreno em um novo corpo. Seria novamente filho de Amaro, mas sua mãe seria Zulmira, visto estarem os três enredados e comprometidos naquela anterior existência.
Júlio retorna ao cenário terrestre. Seu novo corpo expressa as lesões resultantes do suicídio, mas é o abençoado dreno de suas energias ainda em desequilíbrio, agindo como escoadouro dos débitos do passado. A sua vida física é curta e ele desencarna em decorrência das sequelas pretéritas. Mas, na espiritualidade, Júlio se vê finalmente livre das injunções cármicas que contraíra. A partir daí, está em condições de retomar a sua caminhada evolutiva. Novamente reencarna, no mesmo lar e com os mesmos pais anteriores, entretanto recomeça muito melhor, com novas esperanças e perspectivas de mais próxima felicidade. Os envolvidos na trama do pretérito estão agora rearmonizados.
Pode-se observar no caso Júlio dois pontos básicos: as vinculações criadas a partir dos desatinos cometidos na última encarnação desse pequeno grupo de espíritos e, também, que somente através do retorno ao plano físico conseguiriam alcançar a necessária reparação perante as leis divinas e a reconstrução das próprias vidas.
As leis de Deus são perfeitas e equânimes para todos os seres e coisas que povoam e preenchem o Universo. Os sofrimentos são inerentes ao nosso estágio evolutivo; o que vale dizer que ninguém é inocente ou isento de falhas, deficiências e culpas.
A criança sofre porque, na realidade, é um espírito multimilenar reencarnado, com nova roupagem física, mas que traz do passado a sua história pessoal, a refletir-se no hoje.
Allan Kardec ensina:
"O homem, pois, nem sempre é punido, ou punido completamente, na sua existência atual, mas não escapa nunca às consequências de suas faltas. ( ... ) Rendamos graças a Deus, que, em sua bondade, faculta ao homem reparar seus erros e não o condena irrevogavelmente por uma primeira falta".
(Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. V, itens 6 e 8).




Mediunidade e obsessão em crianças, Suely Caldas Schubert, Cap. 03